Restauros resgatam construções históricas no Rio de Janeiro

Era pelo mar que chegavam ao Rio de Janeiro os africanos que formariam a mão de obra escrava, e na região portuária se estabeleceu o comércio ligado ao regime escravocrata. Mais tarde, esse local foi percorrido pela realeza e, depois, pelas sacas de café que ocupavam grandes armazéns até serem comercializadas. Com o passar dos anos, a cidade deu as costas para aquela faixa marítima e a zona do porto carioca entrou em decadência. Até começar a ser redescoberta com as intervenções propostas pela Operação Urbana Porto Maravilha. Escavações arqueológicas mostraram a importância histórica e cultural daquela área, que já exibe restauros significativos, como os realizados no cais do Valongo, no Jardim Suspenso do Valongo e em edificações como o Centro Cultural José Bonifácio e os galpões da Gamboa.

O cais do Valongo foi construído em 1811, para desembarque e comercialização de africanos escravizados no Brasil. Em 1843 ele foi literalmente escondido sob nova obra, para receber a princesa Teresa Cristina Maria de Bourbon, noiva do futuro imperador d. Pedro 2º, e passou a ser chamado cais da Imperatriz. Cem anos depois de sua inauguração, uma reforma urbanística colocou um grande aterro sobre toda essa construção, que agora, resgatada e preservada, é parte do Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, junto com o Jardim Suspenso do Valongo, que tinha em seu entorno casas comerciais de produtos relacionados à escravidão, e o edifício do Centro Cultural José Bonifácio.

Inaugurado em 1877 por d. Pedro 2º, o palacete que hoje abriga o Centro Cultural José Bonifácio mantém atividades com foco na preservação da memória afro-brasileira. O edifício foi criado para a primeira escola pública da América do Sul, a Escola Pública Primária da Freguesia de Santa Rita. Desativado em 1977, o estabelecimento de ensino cedeu seu espaço para a Biblioteca Popular Municipal da Gamboa e em 1994, após grande reforma, tornou-se o Centro de Referência da Cultura Afro-Brasileira.

As obras de restauro modernizaram as instalações, porém mantendo as características originais da construção. O trabalho trouxe grandes desafios, pois envolvia a colocação de ar-condicionado e elevadores, aproveitando a estrutura original do imóvel, segundo Alberto Silva, diretor presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro (Cdurp).

Foram restaurados pisos, telhados, fachadas, forros, esquadrias, revestimentos e ornamentos. Os painéis de azulejo, que retratam as transformações urbanísticas da região do porto, foram retirados no início das reformas e recolados no muro na entrada do edifício. A fachada foi recuperada e pintada, sendo recompostos beirais, platibandas, cimalhas, elementos decorativos e argamassas. As esquadrias de madeira externas e internas passaram por tratamento que incluiu a extração da camada de tinta existente, tratamento anticupim e nova pintura.

O edifício tem 2.356 metros quadrados distribuídos em três pavimentos, que abrigam 18 salas com usos diversificados, como biblioteca, espaço de exposição arqueológica dos achados do cais do Valongo, minicentro de convenções e administração. “Graças a sua importância histórica, cultural e social, o centro cultural abrigará uma mostra permanente dos objetos encontrados durante as escavações e obras da Operação Urbana Porto Maravilha”, diz Alberto Silva. Entre eles estão pulseiras, cachimbos, amuletos e outros itens que, utilizados pelos africanos desembarcados no Rio entre os séculos 17 e 19, ajudarão a contar um pouco do cotidiano dessa comunidade carente de registros históricos. »

O centro cultural foi reinaugurado em novembro de 2013. Sob a coordenação da Cdurp, em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura e o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), o CCJB tem uso múltiplo, combinando atividades acadêmicas, pedagógicas e artístico-culturais referentes à contribuição africana para a formação social brasileira.

GALPÕES DA GAMBOA
Também no circuito de restauros da região portuária do Rio de Janeiro, os galpões localizados na rua da Gamboa, vizinhos à Cidade do Samba, são memória da intensa atividade ferroviária que ali existia no período da economia cafeeira. São dois edifícios, com características da arquitetura industrial inglesa do século 19, que armazenavam cargas trazidas pelos trens. Abandonado durante anos, o terminal ferroviário estava fadado a transformar-se em um monte de entulho, situação precarizada pelos furtos frequentes de elementos das coberturas e esquadrias. Mas há cerca de dois anos essa trajetória começou a mudar com o projeto de restauro desenvolvido pelo IRPH.

Os dois galpões encontravam-se em avançado estado de degradação, completamente desprovidos de suas antigas telhas cerâmicas e esquadrias, e apenas um deles ainda possuía parte da estrutura metálica da cobertura, lembra Fabíola Amaral, supervisora de projetos da Cdurp. O grande desafio, segundo ela, foi recuperar a estrutura metálica e as coberturas, além da restauração cuidadosa dos tijolos das fachadas, que continham inscrições da época, e da reprodução das esquadrias, com a preocupação de não descaracterizar os imóveis.

Com a obra de restauro executada pela Copa Engenharia e já concluída, os galpões tiveram as coberturas refeitas conforme as originais. Os pilares metálicos remanescentes e as marquises foram integralmente recuperados, assim como os elementos em cantaria e os trens existentes em uma das edificações. As fachadas com tijolos aparentes passaram por cuidadoso procedimento de limpeza que manteve inscrições originais e o desenho da cruz de malta.

Das esquadrias, a única parte remanescente foi a bandeira da janela, em madeira com caixilharia de vidro. Para identificar a intervenção atual, o fechamento dos vãos foi projetado com materiais de linhas contemporâneas, sendo as bandeiras reconstituídas, conforme modelo original. Nessas fachadas, manteve‑se a abertura das portas, que deslizam por trilhos fixos na face interna das alvenarias perimetrais. O projeto de restauro foi desenvolvido pela Subsecretaria de Patrimônio Cultural, Intervenção Urbana, Arquitetura e Design (atual IRPH).

 

 

 

Fonte: Arcoweb

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